Trovante & Al Qabri Ramos


 

 

Edificação

 

 Desci ao Inverno que ruía pelas ruas, 

atrevido e belo, 

rumorejante entre as vielas 

e nas copas das árvores, cupim

teimei em assistir 

à magnitude da destruição, 

nessa tarde, 

onde verdadeiramente alarde 

eras tu o rumor da saudade no peito 

que te escondia nos olhos, 

onde sossegavas em cetim

na profusão do mundo, 

este tornado no centro da cidade, 

ao padrão, o jardim. 

Nele, tu eras ainda o pleito.

 

E vestia de cinza e amarelo 

o céu onde poucos ousavam olhar

O Guedes mantinha no cartaz 

o lombo de porco nas sandes

as cadeiras que se dispunham à intempérie,

e eu atónita e embevecida, 

olhava em volta,

por entre as pingas grossas 

da majestosa tempestade,

tentando não escalar a revolta

encrespando o verdadeiro cataclismo

que o teu nome ainda empresta 

ao meu cinismo.

 

Deixei-me tomar pelo pulso do vento, 

rasgar a tortura e o lamento

És ainda tanta saudade, 

que necessito encontrar fora do mundo

o vocábulo perfeito para descrever 

a imensa precariedade,

revisitar o dia em que padeci 

a maleita de perecer, que foi em mim

este regurgitar de inferno 

onde ainda me encontro, enfim, 

nomear a agressividade 

de estar vi(ú)va e refém

de me sentir desencontrada e aquém

desse lugar roubado ao qual pertenco 

dessa hedionda e maldita ausência em mim. 

 

O banco permanece, tal como eu,

agarrado às raízes do que foi,

progredindo em diretrizes sem futuro

atribuindo garras e dedos ao fundo

do que a vida dos outros tomou de mim.

 

A criatura e a criação, separados

pela maldição, pela gula, 

p'la inveja da sedução

nos atalhos da promiscuidade, 

pela falsa proclamação de ser desejo e clímax

e no seu âmago ser nada e ser pavio

para a manutenção da frivolidade.

Terra, útero, céu ao léu 

na procrastinação do vazio. 

 

A tempestade é lenitivo ao estupor

eu rumorejo gritos silenciados e ancoro-os

dentro do olho do ciclone.

Fui convidada a amadrinhar este tornado

por dentro trazer todas as tempestades

onde se silenciou o diálogo dos meus olhos

com a bússola dos teus, nesse país escondido,

nessa escarpa de penedio 

 onde sou ainda, no teu reino,

do teu trono,  amor, rainha.

Comentários

Mensagens populares