Carlos Serra




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desvão de um dia

o que somos afinal
senão o ténue sulco
de uma saudade doce 
e inútil
esquecida no desvão 
de um dia
a que (teimosos) 
chamamos vida?





esta impotência que lês

sempre tive ciúmes dos poetas
que escrevem poemas-palimpsestos
poemas que são várias escritas sobrepostas
poemas que são a escrita de várias escritas
almas agarradas umas às outras
pela cumplicidade dos machambas da vida
e dos tempos que no tempo culimam
poemas que ficam marcados por uma data
pela bússola da memória do local do acto
pela vela de um barco plurinavegado

porque eu piloto da impoesia
arqueólogo da estética que não tenho
apenas sou capaz de escrever poemas
que são como uma sanduíche banal:
a parte de cima é o que escrevi
a parte de baixo o que não soube escrever
e o recheio é esta impotência que lês



O hábito

O hábito enferruja as paixões,
a clandestinidade, essa reacende-as.
Lá onde pisas duas vezes a mesma vertigem,
lá mesmo envelheceste.
Procura o novo especialmente quando ele não existe.
Erige a subversão afectiva em teu hábito.
Sê a bandeira do espanto.
Tatua na alma a coragem jovem dos horizontes inexplorados.
Torna-te o ícone do impossível.

Nota: reparem como tudo isso é coisa de almanaque e, ao mesmo tempo, terrivelmente tentador.

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