Celeste & Laura de Jesus
Ele gostava de instituir verdades dentro dela.
Fazer-lhe recear o amanhã.Pensando que estaria, assim, a aproximar o
seu do coração dela.
-Tens medo da vida.
Ela não precisava responder, mas disse-lhe que o medo era
o motor necessário para que a vida fluísse. O medo era interno
e universal.
-O que queres dizer é que tenho medo de ver a vida passar,
correndo, e não saber acompanhar. Corrigiu este pensamento dele.
Gostava de usar ténis. Precisava deles mais do que do relógio,
porque a vida não fazia avisos prévios. Apresentava ultimatos.
-Amas-me?, ele perguntou ainda.
Estaria preparado para perceber o que ela sentia?
- Amo-te mas também amo o sol e o mar, os cactos e a chuva.
Se é de asfixia que falas, não, não te asfixio!!!
Ele meneou a cabeça, num gesto exasperado
de quem não entendia a língua de que se fala,
de quem desconhece a existência de um intérprete.
Ele não perguntou mais nada. Ela não precisou de usar mais palavras.
O silêncio instalou-se e o abismo caiu entre eles.
Afinal, ele é que tinha medo de acordar na vida sozinho.
O risco que corria era o da solidão. Ela o de apressar a vida
com os seus maneirismos e rituais. Tudo tem um tempo.
Obedece a um timing interno, próprio
E essa era a sua filosofia, a sua religião.

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