Esquece tudo o que te disse
Na matemática das sincronicidades, menos é mais. E antes que mercúrio retrograde, só a 26, faço o relato da minha ansiedade, no caminho para o alfarrábio da minha cidade. Preciso me encontrar, do Cartola, frisa o meu reencontro e tal só aconteceu quando te encontrei. Logo, a verdade é esta: Preciso te ir encontrando vida afora. A sincronicidade vem beijar-me os pés, ali, mesmo 'ao teu lado', sentia-te no vento, escutando o telemóvel do transeunte tocar com o winds of change dos scorpions, sem te poder ver, vendo-te com os olhos do coração, como um afago que se sente, porém, permanece oculto dos outros.
Calcorreei a formosa devagar, tremendo a cada passo, na expectativa desse reencontro comigo. Às vezes, entro-lhe pelas artérias de santa catarina, pausando no mendos e outras, bem, outras, eu seguro a glote para que a minha garganta não grite, não gema, não debite ditongos e nem qualquer fonema, para que o vento não cante nem uive e rasgo-te a esquina pelo padrão. Quase entrando em ti, quase desmaiando o meu coração, de tanto pulo e sacudidela, olhar a tua janela, sempre em andamento, e nem por um momento, ceder à enorme tentação de te fixar no olho. Ontem não o fiz assim, subi ao veiga, parei nos pianos, olhei os mendigos na entrada do parque da invictos que me leva a ti. E fui, do outro lado, atravessando e empurrando a minha ansiedade e emudecendo a minha paixão para o bolso, para os olhos, somente, tentando manter o olhar no chão até ao dito pedaço, ex cauda do dragão, esse da esquina do sushi, onde ergo, finalmente, o olhar frontal e atento para o teu bocado e obrigo-me a não parar, a continuar, descendo, sempre descendo e sempre empurrando o meu corpo além do desejo, além da minha lilith, além da tangível doçura que me toma pelos flancos, que me perturba e me fulmina, a perspectiva sempre viva de te encontrar, de sair a correr pelos paralelos, pelos meio da rua, junto com os autocarros, porque se o sentimento que te tenho se torna mais forte e me ganha ao racional, vou no sentido contrário até parar nesse palco. Olhar-te, sem qualquer pingo de serenidade, desmontar a fajuta aparência de casualidade e denunciar ao que vou, ao que venho, ao que cedo em mim, ao que me continua a empurrar para as formosas, para as alegrias, para o quadrado onde continuo em partes, como um reciclável antigo do ikea.
Esmiuçei a montra, os livros, as parangonas, os vocábulos, aleatoriamente, com um olhar que se poderia presumir de distraída, pela alfarrabista atenta, do lumiére, ao negócio, porque de quando em vez, no intervalo de namorar os autores, eu namorava a atmosfera da tua rua, iludida, o outro lado da estrada, mais acima, iludida, mais acima, a tua montra, de longe mas sempre atenta ao eclodir do desejo de subir um pouco mais acima, esse pouco mais acima que me permitiria, quem sabe, num golpe de sorte, te vislumbrar, ao invés de só te sentir afago, na formosa que desagua longe da areosa, perto do coração. Distraída dos outros, apenas dos outros, que para além de te ter na mente, desta forma persistente, resiliente, consistente e desarmante, sem pinga de orgulho, sem fazer de ti o embrulho, atenta a ti e distraída do mundo, lá voltava eu às parangonas do alfarrábio, ontem encerrado, para onde havia ele ido, nunca tal me tinha acontecido, lá ir e encontrar o mais abaixo encerrado, para descobrir pérolas entre lombadas desinteressantes, e disse-me a concorrente ' que pena' ele não estar lá, mas já esteve aqui hoje. Não tu, tu não vais ao alfarrabista, que trazes dentro de ti sabedoria para encher uma casa de criações próprias, tu que nasceste de arte sacra, mas o alfarrabista onde descubro diamantes, não estava lá, e para não dar o tempo por perdido, namorei a montra do lumiére que estava revolucionária, ocupy wall street movement, as portas de abril,o manual de numerologia, que soma o cateto da hipotenusa à circunstância primaveril de não ser abril mas estar sol e por aí vai, tanto livro a pedir para ser lido quanto antes, e a ti, nunca te vi, sempre que lá vou, e vou por tua causa, para te sentir perto, para me dizer 'olha, se entrares ali, se entrasses ali, se tivesses a coragem de uma mortal feroz, se fosses a ele como vais à Foz, ressuscitarias a alma, lavarias com formusura e calma o anseio que aí te conduz' mas eu ignoro o meu palavreado, esqueço-o no armário das coisas ocultas , desniveladas e apaixonadas que vou desvelando, como a um rosário cravado de pedras malaquitas, revelo o amor escondido, o peso das saudades nas palavras que dizem que vou sem ir, esbatendo a ansiedade, que nem sempre dizem quando vou e o que sinto e vejo de cada vez que entro na alegria do passeio que antecipa a minha chegada a tão formosa nenhures. Cravo o olhar no astrarium e volto ao fontanário e volto ao jardim de uma infância entalada na graça do romantismo, e a alfarrabista sorri, entre uma página avulsa virada ao meio e o óculo que lhe quer cair por rotina, e ela empurra o aro de volta ao nariz e eu empurro os dedos à bolsa de moedas e pago seis euros e trago um verdadeiro diamante, já lapidado e degustado pela sociedade do rio de janeiro no Brasil, no ano da graça de mil nove trinta e dois, ah pois! Deus lhe pague é, não mais que a sátira da vida que lembra, sem referenciar, os velhos poemas, os velhos autores, os mais velhos momentos, oxigenados pelo esquecimento que nos levam à repetição. O artista compõe a obra inspirado pelo desassossego da vida, e o ensaio passa a ato, divide-se em vários atos, de Molière a Camargo e eu, que Deus lhes pague a inspiração, vivendo e desmontando ataduras, quase como ditaduras, que duram pelo tempo de acomodação a tanta mentira em catadupa, de tanta gente distraída! Só que ao artista não! Ninguém distrai o artista, ele se obriga à contemplação, lendo realidades sem dizer estou a ler, a identificar as curvas e as composições, as pontes e as nomenclaturas das sociedades entorpecidas, o artista rompe os critérios e faz da irrealidade sonhada o objeto de arte e inspira personagens criados, criaturas que são obra de Deus e não do Diabo. Gil Vicente rir-se ia do atrevimento, do meu, de ao falar de teatro, não lembrar do seu nome, mas ele sabe que não sou nacionalista, sou humanista, contrabandista de arte, dos afetos que desassossegam, do intelecto que não cala, raios me parta se a própria astrologia não é a arte de interpretação do ânimo dos planetas, regentes e co-regentes do universo, tal como o poeta é o regente emocional dos versos e sonetos, dos alicerces da caneta tabulados no século treze por Giacomo de Lentini, o soneto pelo Petrarca que motivou a arca da humanidade sobrante e chegante a Camões! Não me venham com morais obsoletas, com diatribes farsetas, que eu cheguei a Camargo e parei. Não só com ele, também com o Procópio que me fez despertar para a genialidade de uma sátira contemporânea, escrita, descrevendo o tamanho da nossa insipidez, e também da simplicidade da vida, quais fogos fátuos, fábricas do patrocínio da mentira, véus da ilusão de regência neptuniana que sempre nos traz de volta ao erro da ignorância ou falta de sapiência. Vou partir o prólogo em duas partes e hei-de partilhá-lo neste blogue, para lembrar e inspirar que há Camargos calados, que há Procópios tímidos, que há receios infundados e delírios lenitivos ou insípidos ao gosto de cada freguês, tudo oculto no tecido social, tudo invísivel pelos focos excessivos e extensivos da estupidez mediática e do adubo dos egos que lascivos, se desdobram na corrupta noção ilusória de serem donos do mundo, deste ou de qualquer outro. Que os verdadeiros donos não possuem nada, a não ser a si mesmos, criando e recriando, animando e promovendo saltos de fé, traduzindo o amor incondicional no verdadeiro fogo divino. O da recriação das eras onde se passeiam os deuses que devem, certamente, estar loucos. Que se distraem, emoldurando através de conceitos como simetria, beleza, cor e som a extrapolação de espaços, de planos, de abstratos conceitos que, tal como numa receita de culinária, misturam ingredientes e especiarias e vão moldando o estômago de Deus. Lorca dava bolachas ao allmighty na peça onde Viriato era sua santidade, o bem supremo, e todos os artistas recriam um admirável mundo novo (parafraseando Aldous Huxley). Que há no mundo de novo? O belo, o virtuosismo, a resiliência (ou ainda levo uma chapada de Saturno) e assertividade e a expansão divina que a Júpiter é creditada. A receita é sempre a mesma. Junte amor, quanto baste. Servir a gosto, frio ou quente, consoante a estação dos seus interesses e motivações. O meu motivo és tu. Deslizo para fora da loja, na minha mão um achado. Camargo e nele Procópio. Dou-me por feliz, mesmo sem te ver, vi-te inteiro. Deus existe no amor que te tenho e que nutro os dias e alinhavo as linhas das estações do meu corpo, onde já não passas, por me veres, nem como apeadeiro, sou o nome que recitas baixinho, enquanto eu saio do número 197 da formosa e prossigo até mais perto, até à esquina onde, se fosse brava e corajosa, se fosse realmente audaz e congruente com este meu desatino de te amar e querer ser amada, faria uma reentrada e pediria uns acepipes. Ou um simples café que foi sempre coisa que me ofereceste. Fujo ao meu próprio jogo, o jugo que me obriguei de te amar à distância, como o mendigo das sobras, ignorante, o imbecil que se limita a ser excluído social, que lhe basta para tal uma beata do chão. Deixa-me ser o charuto na boca do mendigo que debate filosofia no espaço que antecede o vestíbulo de Deus.
Mas não era nada disto que te queria falar, queria antes sentir-te e ver-te, presente divino seria, que a minha aproximação a ti continua ser guiada. Deus é que quer tudo, eu não quero nada! Mas ele sabe que te ver enche-me os pulmões de ar, a fé renova-se e a esperança enche-se de vitalidade. A expectativa de te encontrar é, em si mesma, a promessa de me renovar, nesta descontrução de paradigmas e momentos de vida tristes e extenuantes. Subo a rua como se subisse ao teu dorso, num chiste de ânimo e chalaça, para que a bota não canse e a perdigota combine, sorrio para a brochura deste diamante lapidado na minha mão, recente achado, e sigo rumo ao teu número, ao teu cheiro, como uma cadela no cio, e depois de dobrar a esquina, espreito, fingindo ver renovado o prédio, tanta surpresa, eu que nem olho o prédio e os olhos caem na tua montra mas não estás lá, vejo a penumbra esguia de um casaco vermelho atravessar a rua e faço de conta que sou tua, que ainda sou tua, que ainda te sou qualquer coisa entre uma lembrança e uma mágica lua e galgo, esparta e decidida, fujo, como garatuja pronta a ser limpa, até ao parque do padrão e dou por mim vencida a esta falsa questão. Vou até ao jardim, junto ao guedes e sento-me naquele banco do velho, de qualquer ancião lento e vagaroso, olho os distraídos, como eu, a gozar os minutos ao tempo, enquanto o sol debita mais um pouco, não espero as 18 e 18h. Ergo-me em direção ao bote e faço questão que aqui se note que não há qualquer abandono ao projeto, apenas a compaixão pelo meu pobre coração, por mim, se quiseres. Já me encontrei, o que preciso, sem falta, e aponto na agenda, adenda ao dia 24 em questão, mercúrio em clara oposição ao meu ascendente, retifico o pendente: Esquece tudo o que te disse, quando te prometi esquecer! O que eu queria que entendesses e não minto é que tu não és castigo, nem te encontras ausente, ficaste para semente e com o amor que te tenho, adubo jardins. Esquece tudo o que te disse, só não esqueças de respirar, meu menino.

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