De Procópio sobre Camargo
Memorial da Democracia, na foto que data da esteia:
Elza Gomes, Eurico Silva e Procópio Ferreira, o homem que assina o prefácio.
Prefácio
de Deus lhe pague
" O teatro é a síntese da vida"
Frase feita da crítica
Para mim, a vida é a miniatura do teatro. Ele a aumenta, a embeleza, a sublinha. A vida cria o conflito; o teatro o resolve; e, nessa solução, a vida tem aumentado o seu património moral. A vida está cheia de Ciranos, Hamlets e Otelos, mas só depois de a Arte os haver mostrado é que o Mundo começou a reparar neles. A vida na sua simplicidade é banalíssima. Sem o magnetismo da Arte toda a natureza é muda. Onde a epopeia de uma noite violenta de tempestade, se não houver um poeta para cantá-la? No calendário da vida a arte marca os grandes momentos emocionais. Que é a civilização senão uma gigantesca obra de arte que a Humanidade vem criando pelo apuro dos instintos? O esforço humano violando os mais calados segredos da Natureza para do seu mistério arrancar um pouco daquilo que ele chama perfeição, eis a eterna luta do Homem. Diante da sua própria obra, as emoções dos homens são todas iguais.
Toda a palpitação de vida é registada pela Arte com a violência de um choque. Por isso, a Arte parece antecipar-se à Vida quando objectiva emoções e ideias ainda sufocadas no íntimo das consciências. Mal se desenha o fenómeno, a sua força criadora dá-lhe forma, fazendo-o caminhar. E o seu poder de sugestão é tanto maior quanto maior for a soma da humanidade que trouxer. Arte que não vibre com células humanas não é arte: é cópia fria da Natureza. É traição fotográfica.
Ora, a presente situação do Mundo, paralisando milhares de braços, arrastou no chômage imenso as forças criadoras da Arte. O artista, ontem operário cheio de motivos, é hoje um moribundo a expirar dentro do casarão vazio. Não existe arte em decadência; há sociedades mortas, nas quais o artista já não pode viver. É este quadro onde os artistas sem audácia ou sem compreensão do momento se debatem tragicamente, procurando em razões, as mais diversas e absurdas, o motivo infeliz da sua própria mumificação.
Estamos nas vésperas do grande dia de juízo de uma época. Dia do Deve e Haver; do prémio e do castigo. Como folhas sopradas por tufão violento, as mentiras caem fragorosamente. Ninguém mais crê senão naquilo que realmente existe. O Mundo exige a verdade em tudo e em todos. Não basta que o Criador seja verdadeiro, é necessário que a criatura também o seja. Ontem, crendo-se no Criador, estava absolvida a criatura. Bastava uma aparência de verdade para endosso de alguém ou alguma coisa. Era o bom tempo da "plataforma mentirosa", do parecer capcioso da "grande autoridade jurídica", da voz interesseira do "jornal do povo", que infiltrava nas consciências a sua opinião. Opinião que, transformada em crença, era intransigente. Firmada, assim, em suas convicções, por medo, respeito, ignorância ou preguiça, a Humanidade deixou-se apodrecer como água estagnada. E, quando novos rios, pequeninos filetes de água clara, deslizarem ao encontro dos outros rios, até formar esse caudal imenso que tudo leva de enxurrada para o fundo dos abismos, nenhum tronco carunchoso resistirá à fúria da corrente. O que não possuir raízes fundas na terra será arrastado. Raízes são os elos indestrutíveis da verdade que reúne os homens. A solidariedade humana é essa comunhão de tentáculos, que se irmanam e confundem, partindo de um só ponto para os pontos mais diversos e distantes. O ideal é o ponto divergente: - dele partimos e a ele voltamos pela fatalidade da parábola. Por isso, lamento os que procuram desviar-se dessa rota traçada pela natureza omnipotente dos factos. Serão esmagados pelo todo. Nesta hora tremenda dos destinos humanos, em que as mentiras são abandonadas como jóias incómodas, em fim de orgia, insistir em mantê-los é dar ao Mundo o mais triste espectáculo de si próprio.
O artista e a Arte têm de ser verdadeiros para que haja utilidade na criação. Hoje, um homem tem de ser uma verdade, um valor, uma afirmação clara, precisa, integral. Ontem, o adjectivo valorizava o homem; hoje, o homem é quem valoriza o adjectivo.
Joracy Camargo é, portanto, um homem de génio. Deus lhe pague ... não é simplesmente uma peça que caiu no goto do público e permaneceu no cartaz por culpa do empresário imbecil. Não é desses êxitos de gargalhada, deprimentes, despudorados e cretinos que hão-de envergonhar suficientemente no futuro.
Deus lhe pague é a grande obra cultural do teatro brasileiro. Marca o início da nossa arte cénica, na sua verdadeira expressão: - teatral, culturral e social. Com Deus lhe pague o nosso teatro, até agora acanhada representação de hábitos, usos e costumes, pilhérias e sem intenções, além de distrair, integra-se na sua alta missão educativa como factor principal de civilização.
O teatro cátedra, como o possuem os grandes povos, encontra-se nesta obra pima de Joracy Camargo, o modelo de lição humana, profunda, sadia e lógica, exigida às obras de condução que focalizam os grandes momentos da história. Realização magistral sobre as emoções da hora presente: reflectindo as inquietações, as ânsias, os receios e os temores do mais belo dia do Mundo, Deus lhe pague será parra os vindouros o pergaminho precioso onde se escreveram as verdades palpitantes da consciência sofedora dos nossos dias. Os louros que lhe atiraram florescerão sempre; cada geração saberá renová-los, porque Deus lhe pague é dessa imortalidade sólida dos planetas que não desaparecem nunca. Sei perfeitamente o quanto hão-de parecer exageradas, aos olhos dos falhados, dos nulos, dos imbecis e dos despeitados, estas minhas palavras.
Felizmente, isso já não nos tira o bom humor, como outrora. Sabemos o que somos, onde estamos e para onde caminhamos. Já não nos movem os zurros de tais alimárias. Dentro de uma profunda solidariedade humana, só nos interessa o bem que possamos fazer à colectividade. Já rompemos o círculo de ferro das competições pessoais. Somos por todos e para todos. Do palco atiraremos aos nossos a verdade com a mais pura das intenções.
Operários da Arte, a nossa produção é para todos aqueles que quiserem e souberem aproveitar um pouco deste trabalho feito com sangue. Fraca, embora, a nossa dialéctica já é razão de ser da nossa existência, uma vez que no grande ideal da felicidade humana fomos encontra a única fonte mitigadora da nossa sede de justiça.
A coragem que nos anima não repousa numa fantasia; antes do pensamento, falou-nos o instinto, por isso a nossa marcha é consciente. O autor e o intérprete vivem Deus lhe pague. Ambos são todos aqueles personagens da tragédia colossal.
Procópio


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