Tal como Rainer Maria Rilke

 


 

 " Espero pelo Verão como quem espera por outra vida". 

Em Rilke, o Verão é a tremura e o anseio da estação quente mas em mim, tu és todas as estações e apeadeiros, todos os marcos e os amieiros, os ciprestes, as trepadeiras, os rios, as margens, as silvas, os espinhos e os relevos, como novelos que se não findam, resistes ao encarpelado e soçobras, provocando tremores de terra e vulcões, desses que se julgam adormecidos.

 

Atinges-me saudade, expoente da dor física, que isto de viver no inverno, apesar das chuvas, as que são lânguidas, apesar das mantas que nos aquietam na direção do sono, apesar da promessa que a noite traz para um amanhã incógnito, saem labaredas do meu hálito em brasa, do sangue que me corre nas veias diante da expectativa solar, se regressasse a ti que és a minha casa. Assinalo, pendurado numa placa o teu nome decomposto em sílabas simétricas, fogo posto,a geografia  do teu rosto, do tato e do olfato, qual desígnio de deuses transformado em desgosto nas lágrimas que correm sem aviso,perdidas no ato da despedida, sem mãos, sem palavras, sem encerramento. Poderá o meu destino cruzar-se,mais uma vez, qual peregrino, no caminho distante, seres meca, descalça  de mansinho desenhar-te fora do labirinto e arquitetar-te casa? 

Arrasta-se em mim a vastidão dos desertos e a sede dos oceanos que me cobrem de espuma e de saudade que não amansa. Um pássaro sem asas, da cicuta do tempo, que se abate ao alvorecer. Encontro na minha natureza uma resistência ao frio visceral e húmido que me chega a ser fatal, por ser, eu mesma, desse calor de julho, a noite de luar denso, e quando observo, perdida, as tempestades primaveris, onde te adivinho sem ver, tensiono em mim esse depois para este agora, esse depois de uma ardil demora, retardando-se e aumentando a febre violenta, de onde me permitiria ir, se eu pudesse, nesta aurora. 

 E se sou o que penso, se sou a sombra dessa aragem ou atmosfera, sou também a espera tortuosa que vive abrigada no equinócio de inverno, nesse rastilho entre o cavalgar da primavera e o abandono ao inferno, se sou o que sinto, há em mim uma dor, ora rosa perfumada de tortura ora mosto e absinto, coberto de línguas de cascalho, fuligem de orvalho, arrancado ao areal, atravancado de lismos e farfalho, de cavalos de fogo que são de tróia a arder, da pira de fogo de amar, que vão protelando armistícios a deus neptuno na preamar. 

Um quê de efeito similar ao álcool etílico queima a vertigem em que te transformaste, Sol quente, Verão eterno na minha pele, e, ao fundo, a cinzel prateado, no horizonte alcançado, vaticino, em jeito de imploração, que me venhas colher, ou o altíssimo, que tu tardas já tanto e esta ferida arde. 

E da caverna soturna mais ao fundo, antevejo retornado, saturno, que é dizer o dito cujo muro se vê temporal, da eternidade que parte as estações em épocas, em ditaduras de hostilidades e amor, toda esta longevidade que cresce como joio, floresce diante de tudo e como pode haver tudo, sem ti? Sê branda, oh dor, que te sou cativa,não hás-de presenciar a minha sepultura.

 E eu chamo-te: Verão, que é dizer Faustino, que da extinção do Verão vem aflito o medo de seres só estória que alguém se atreveu a recriar, personagens inventados no plural para atestar e corroborar que é tudo ficção, não, grito o teu nome na penumbra da folha em branco, Faustino, soletro o teu nome em côncavo sussurro, o teu nome que me anda preso na glote  e, o que vem do vento e do eco é um porão contínuo de memórias, as histórias que anoitecem dentro da alma, fingindo apascento de gado e calma, vêm fazer-se soalho, colchão, chão do amor que te tenho, onde me deito e ergo e a que mendigo pausa.

Ainda com Rilke dentro, no que digo e do que calo, ele exige-se a verdade inteira. Eu também. Não há meias verdades. Que seja, então, inteira e crua, esta saudade com o teu nome por dentro.


"I want to unfold.
I don't want to be folded anywhere,
because where I am folded,
there I am a lie."

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