Alma Novaes & ALA
Os predadores sociais
(partida de Lobo Antunes)
Ao vulto dos que somem, subtraio esses outros
que se untam e besuntam no seu nome,
medindo, ardilosos, o espaço ao sol, como tinhosos
que lhes assoberba o ego, imaginando
que é menos um adversário a detê-los
desta mescla de cultura,
subindo as escaleiras
no panteão sagrado da literatura.
Degladiam rumores e fofocas
maledicências e mexericos,
do que desconhecem
nas vidas alheias, tornadas públicas
pela doação e propósito
(e às vezes, por sacrifício)
vão inventando escândalos
e formas feias de diminuir
a imensurável alma humana, e
ainda num postum exequias
se enchem de flatulância e primor
(que lhes prima a culpa),
para debitar, afinal,
sobre as pérolas dos outros
que tentaram denegrir,
com as suas línguas ligeiras
fogos fátuos que espelham somente
o vazio das suas vidas,
da naftalina, dos retratos,
compartimentos encolhidos
nos seus próprios guarda-fatos
Afinal, os maus, os artistas da dor
e do esquecimento,
que retratam a época
os que se atrevem a criar,
partilhando íntimas emoções,
os que se doaram em hasta pública
que acrescentaram,
sobeja obra ao espólio humano
já desfilam no átrio dos deuses,
totalmente alheios e soberanos
às inúteis insignificâncias
que se multiplicam neste plano!
Que eles partem sem morrer,
deixando partes da alma
em crónicas, poemas e prosas,
abandonam-se agora ao descanso,
até que a memória coletiva
os petrifique na torre do tombo
ou os esqueça, numa coroa de rosas
recompensando-os, libertando-os
dos grilhões sociais, através da sua partida

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