A densidade do silêncio no movimento perpétuo

 


Deambulando pelo céu, eu, na atividade que agora designo por asterismo terapêutico. Não é uma dieta e funciona, por vezes, como uma bandeira vermelha, numa praia deserta e ventosa, por outro, como o experimentar de teorias que poderiam descer do seu aspeto metafísico e se tornarem materiais. O perigo e a paz são iguais noutros exercícios, sejam eles quais forem, à conta da manifestação. Do assim em cima, como embaixo. Assim fora, como dentro. A magia da vida a acontecer sem controlo remoto na nossa mão, nós que julgamos possuir o absoluto e o etéreo na materialidade em que vivemos nesta dimensão. A vida não avisa a quem vai e nem a quem chega, surpreende a todos. A gravidez, a fertilidade surpreende-nos a todos, porque se revela para além do nosso poder físico. A lua cheia culmina em algum ponto na tela da nossa vida. Libra é a minha casa quatro. Fundações, famíia, laços, sejam karmicos ou estruturas que mantiveram edifícios, sejam crenças, alianças ou objetivos concretos e físicos. A vida cruza fios, de ariadne, cujos propósitos só entendemos na transversalidade ou talvez nem os cheguemos a compreender, de tão misteriosa se faz a nossa existência. Teseu saiu do labirinto. Também eu o hei-de fazer. 

Sei que estou viva, nesta concepção que tenho dela, porque me dói a cabeça, porque o peito comprime-se, porque o gelado se mantém um prazer, assim como o estudo do rosto dos outros, a mímica que nos faz deduzir que existe o sopro comum a todos os que respiram noutras latitudes e nas mesmas coordenadas, no mesmo plano, no mesmo chão. E enquanto via o filme com o saudoso Burt Lancaster, imaginava o chão que eles, os "eles" todos que partiram, fizeram, nos servindo de base e apoio, de engrenagem, de aprendizagem, de inspiração e de coragem. Que é sempre necessária coragem para se ser isto, se fazer aquilo, se afirmar algo diferente, como dar um passo em frente, quando todos se recolhem nas suas vidas, no seu canto, acocoradas por mil pensamentos, ideias ou sentimentos. Somos o chão dos que vêm sobre nós e se elevam para além do que deixamos e do que nos atrevemos a ter sido ou ainda a ser. Para que possam, a partir de nós, agora, também eles mudarem e acrescentarem. Tudo tem um preço, uma consequência, um desfecho. Nessa altura, não há bandeiras vermelhas. Somos nós mesmos a bandeira vermelha, desfraldada ao vento, lutando para nos elevarmos além da matéria. 

Os ermitas são uma subespécie dentro da categoria abrangente da humanidade. Uns por escolha, outros por consequência, às vezes o sujeito, outras os grupos empurram o ser para o desvio que o impede de conviver com o grupo maior, esse tecido social comunitário. Erguem-se barreiras sociais, económicas, políticas, religiosas e inventam-se critérios, leis e cláusulas para que assim se mantenham. Outras vezes, o próprio sujeito, imerso nas circunstâncias em que viveu, foi testado nas provas e ele mesmo se refugia, como se condenasse a sociedade onde nasceu ao seu isolamento, ao seu ostracismo, provocado ou auto-infligido, que pode querer dizer, ao seu desprezo imenso. Uns e outros encontram razões mas o ser humano não nasceu para estar isolado. Nasceu para fazer parte dos grupos, para participar, para se entrosar e desenvolver ações que elevem a humanidade a novos patamares. E se todos foram chão para quem está, nós mesmos seremos o chão dos que surgem, aos biliões chegando no bico da cegonha, na ilusão de um sonho, aos trambolhões, da escuridão se faz luz e eis que chegam e trazem eles mesmos sonhos e metas e missões nas quais seremos o adubo da terra, para que se materializem. Assim como em cima, em baixo. Um dia, os que vão chegando, partem, deixando as suas vidas de restolho para que outros seres as pisem e se firmem novas comunidades na terra. A solidão, ao contrário do grupo, cria densidade invísivel e desaconselhada, a título permanente. Não somos celibatários sociais. 

Os asterismos são pessoais mas vejo todos os reinos, desde o vegetal ao animal e na maioria, não vejo humanos, mas deuses a passearem-se entre as muralhas do meu refúgio e o horizonte caprichoso. O mais real do que vejo são os pássaros, na sua maioria, gaivotas, pombos, rolas, andorinhas e pardais. O concreto das paredes erectas construídas para proteger e cuidar, esconder e guardar, os tectos e os telhados, uns mais pronunciados e outros quase invísiveis. De humanos, o esboço de um perfil, o cabelo desalinhado, os sulcos pronunciados de rios que secaram, duas fossas sumidas que um dia respiraram com mais pressa ou alegria permanecem quietas, sem fogo, as rugas de uma senhora de idade que espreita e cisma na janela debruçada. Cisma que vê deuses a passearem-se, descalços, com pratos de tartes e bolos fumegantes, e cadeiras de espaldar, tronos feitos de novelos de seda, se a seda viesse em novelos. Não lhe vejo o isolamento no rosto, mas sinto-o na atmosfera da tarde. Imagino que já viu coisas e pessoas de todas as idades e latitudes, que já correu entre campos, nas eiras, que subiu árvores e desenhou estrelas e sóis nas páginas em branco de uma sebenta escolar, que já lhe caíram tranças pelas costas e dente de leite que guardou debaixo da almofada, quando ainda não sabia que pertencia a uma raça de gente chamada humana e que era mais uma jovem habitante do planeta e que tinha direitos e deveres, que podia sonhar e materializar, se ousasse aceitar as regras, ás vezes explícitas e outras que se depreendiam, que se deduziam. Que levaria ralhetes e abraços de aniversário, que subtraíria e dividiria tanto ou mais do que multiplicaria à espécie. O azul claro esbate-se no jardim onde as flores todas imitam o sol a pôr-se. Desfazem-se com a velocidade do vento, as brisas que são interrompidas pelo ritmo humano do stress, pelo barulho dos veículos que regressam do passeio de domingo, a algazarra desta ou daquela novidade que trouxeram nos olhos e na boca; a humanidade é essa grande possibilidade de partilha e convivência com outros semelhantes, não o fechar de portas, como se fabricam nãos para a convivência entre iguais. Aos idosos, que são todos os que se atrevem a envelhecer, depois de terem servido e serem servidos, usam-nos como bandeiras vermelhas numa praia deserta, em sinal de perigo aos que se aventurarem a viver: Cuidado, viver a sério envelhece!

Agora, que a noite desceu, que o cigarro se finou, estrangulado pelos meus dedos no cinzeiro, agora que me preparo para a toma do alprazolam num corpo cada dia mais ausente do plano físico, oiço gritos e socos na madeira, oiço alguém que pede socorro e vejo na varanda defronte uma jovem que ouviu o mesmo que eu e torno a abrir a janela. Numa distância de três metros, mais coisa, menos coisa, pergunto-lhe se sabe ou se viu de onde vieram os gritos, os insultos, a dor, ao que me responde: Ou dos apartamentos ao lado do seu ou defronte. Sei que foram agressivos, ouvi alguém chorar e gritar e socar talvez uma porta. Não sei se chamo a polícia. Quando me aquietei para escutar os ruídos externos, o silêncio imperou e pesou mais na atmosfera. As paredes escondem, ao invés de revelar. Várias janelas se abriram, várias pessoas saíram para o exterior dos seus pátios, percebendo que algo tinha acontecido. Mas foi a dúvida misturada ao silêncio que ganhou as últimas horas deste dia em que já é noite. Quem lidou com um momento de violência preferiu ocultar, resolver ou calar o grito anterior. Ás vezes, a solidão é maior quando estamos acompanhados pelas pessoas erradas. Quiçá, quando a discórdia se torna uma urgência que se manifesta, quando a dor irrompe, denota a distância inconciliável de dois corações se ouvirem, se entenderem. O tempo é o sal, se houver vontade e se ela for mútua, recíproca. Se não, a eleição da solidão - estar só - é, sem dúvida, a melhor das escolhas. 

Hoje que as minhas rugas se estendem pelos anos de experiências emocionais, psicológicas (neptuno e plutão), sociais, práticas, (vénus, mercúrio e marte) saturninas, entendo (sol) que só o medo (lua) nos faz escolher a companhia de quem em nada se assemelha a nós, nem nas intenções, nem nas metas e nem nessa matéria menos densa que desde sempre prefiro conviver, a dos sonhos. Na sabedoria bela e popular, do "mais vale só do que mal acompanhado", lembro-me também de um belo autor que em 56 nos pariu uma bela pérola, património mundial, António Gedeão, no poema que pertence ao Movimento Perpétuo, o da pedra filosofal, mui bem interpretada por Manuel Freire anos depois, quando o homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança, que eles que somos todos nós, não sabem e nem sonham que essa bola colorida é o que vimos concretizar, marcando profundamente os nossos passos e a vida dos que nos rodeiam. 

A solidão na velhice não é um eufemismo de escolha. É a forma de engavetar o que outrora foi sol e foi criação, agora num fora de prazo, por nos fazer lembrar que também nós alinharemos na retórica dos lares e das famílias humanas que nos acompanham até ao sacudir dos suspiros. Os tapetes humanos são melhor vistos do céu, porque podemos bem adivinhar o romantismo inerente ao desenvolvimento que os acompanhou, temos forma de sonhar os passos que deram desde que desceram para este plano e pisaram no espólio humano anterior. Vemos que o bebé desenvolveu a sua própria forma de ser, a sua unicidade, que a sua personalidade atraiu estes e aqueles, que travou batalhas desiguais, que bebeu água e descansou nas sombras do Verão, que criou laços e que, a cada passo, uma década, um bando de pássaros, um lenço apinhado de lágrimas, de risos e de sonhos, que se deixou contagiar, que medrou e chegou a cruzar mares sequer sonhados e aterrou, depois de tantas épocas, e não foi de repente, que nada é repentino, a não ser a vida, já era a bandeira vermelha de aviso quando viu a mãe a acamar-se, aquietando-se entre mantas, que viu o pai cruzar a esquina em cima das suas proprias pernas e já não foi capaz de voltar a vê-lo de pé, num abraço esperado. 

A solidão é bem melhor quando tomada pela perspetiva, sábia, da solitude. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás todos os outros. Se a solidão pode desembocar, por medo, em vulnerabilidade, não te deixes contagiar. Escolhe a solitude e a coragem de romper com o que te não identifica. A vida dos que partiram permanece no habitat ao teu redor. Nunca estamos verdadeiramente sós. Oiço o roçegar de asas, não há gritos, nem violência, nem vozes turbulentas e nem controlo. O silêncio desce, musicado.  Contra qualquer medo, que o medo é o maior instrumento de ditadura e de opressão, recomendo  numa posologia sem moderações e muito qb, António Gedeão na voz de Manuel Freire.

 

 

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